Na edição nº 1.826, no artigo sobre o Carnaval realizado em abril, em nosso município, deixei de citar a presença do Mestre Ciça; alguns devem, provavelmente, ter pensado que foi um esquecimento, uma falha de memória, todavia não foi o que aconteceu. Em um artigo com limitação de espaço no semanário, e depois de tantos comentários sobre a festa de Momo, não caberia apenas citar uma figura tão importante e tão vitoriosa no Carnaval do Rio de Janeiro, como o Mestre Ciça. Por seu histórico ele mereceria um artigo especial, que sairia na edição seguinte.
Como não somos donos do destino, a morte súbita de um colega e amigo, determinou que o artigo sobre Mestre Ciça, que já estava montado, ficasse para a edição seguinte.
Quando anunciaram que Mestre Ciça e parte da bateria da Viradouro estariam em Cantagalo no último dia do Carnaval de abril, fiquei cheio de dúvidas, será que um cidadão multipremiado no Carnaval carioca viria até Cantagalo? Era verdade, no dia 21, à noite, estava ele, com a formidável bateria da Viradouro, no final da rua Barão de Cantagalo, defronte a sede da Loja Maçônica Fraternidade Beneficente. Tudo pronto para a exibição tão aguardada, todavia aquele cidadão de físico mirrado permanecia tranquilo e pacientemente atendendo a todos que desejavam uma fotografia em sua companhia. Educadamente, parecia não ter pressa, figura de um autêntico carioca do bairro do Estácio.
O desfile foi um sucesso, superando a expectativa da população. De modo surpreendente, bateristas e passistas das escolas de samba de Cantagalo passaram a fazer parte do desfile dos niteroienses, transformando o Carnaval em uma festa de confraternização entre a serra e o litoral, unindo todos os carnavalescos, demonstrando que o Carnaval é a festa mais popular do Brasil.
Terminado o desfile, a bateria deu um show no palco montado na rua Maestro Joaquim Naegele, com passistas levando o povo a um verdadeiro delírio de alegria. Tudo dentro da maior harmonia humana, com a presença, também, do carnavalesco vitorioso, nosso conterrâneo Tarcísio Zanon.
O Mestre Ciça é um carioca da gema, nascido na cidade do Rio de Janeiro, no dia 20 de julho de 1956, foi criado no morro de São Carlos, no bairro do Estácio, centro da cidade, e núcleo do samba. Morando, até hoje, no mesmo bairro.
Aos 15 anos tornou-se passista da escola de samba Unidos de São Carlos, que, mais tarde, passou a ser Estácio de Sá, onde foi, também, ritmista. Depois do primeiro casamento permaneceu afastado do Carnaval por um período de sete anos, retornando em 1985 como ritmista da Estácio de Sá.
No Carnaval de 1989 Ciça passou a comandar a bateria da Estácio, ocasião em que já apresentou diversas modificações na bateria da escola, conquistando a nota máxima de todos os jurados. Ciça permaneceu nesta escola até o ano de 1997.
No ano de 1998, Ciça foi o Mestre da Bateria da Escola de Samba Unidos da Tijuca; a escola ficou em penúltimo lugar, sendo rebaixada, todavia a bateria recebeu a nota máxima.
Durante onze anos (1999-2009), Mestre Ciça esteve comandando a bateria da Viradouro, neste período, a melhor classificação da escola foram três terceiros lugares (1999-2000 e 2006).
De 2010 a 2014 o comando da bateria da Grande Rio esteve com Mestre Ciça, alcançando a escola o vice-campeonato no Carnaval de 2010. De 2015 a 2018 o Mestre Ciça permaneceu na União da Ilha, sendo que em 2018 a escola da ilha recebeu 5 diferentes prêmios como melhor bateria.
Em 2019 marcou o retorno de Mestre Ciça na Viradouro, onde permanece até hoje. Nestes oito anos a escola atingiu sua melhor fase, sendo campeã três vezes (2020, 2024 e 2026), vice-campeã duas vezes (2019 e 2023), um terceiro (2022) e um quarto lugar (2025); sendo que em 2021 a pandemia não permitiu o Carnaval.
Exercendo a função de Mestre de Bateria há 38 anos, Mestre Ciça já recebeu 32 premiações por sua atuação nos carnavais cariocas. Fora do Carnaval, recebeu, em 2026, a Medalha Tiradentes, honraria da Assembleia Fluminense às pessoas que prestam relevantes serviços às causas públicas.
No Carnaval desse ano, Mestre Ciça foi homenageado pela Viradouro com o enredo” pra cima, Ciça”, obtendo a escola o título de campeã.
Ao ser entrevistado Mestre Ciça declarou: “Eu fui homenageado em vida no maior carnaval do mundo. Fizemos um longo ensaio, tudo cronometrado nos mínimos detalhes. Ainda parece que estou sonhando. Para alguém que está há 38 anos como mestre de bateria e ser homenageado… quem ganha é sempre o samba e o sambista”.
Apesar de ter passado por cinco escolas de samba diferentes, em pontos diversos do solo fluminense, Mestre Ciça residiu sempre no bairro do Estácio; na sua simplicidade declarou; “Morei em vários endereços, mas sempre no bairro. Tive oportunidade de ir para outros lugares, mas não pretendo sair daqui. É um bairro muito bom. Aqui tem tudo. O metrô fica logo ali em frente e tem ônibus na porta. Para mim é ideal”.
Este sambista, genial e simples, tornou o Carnaval de Cantagalo ainda maior, distribuindo alegria e simpatia, só nos resta dizer: OBRIGADO MESTRE CIÇA!
Júlio Carvalho.
