“O fator invisível da performance”, por Jalme Pereira

Conta-se que, em uma antiga vila, havia um jovem arqueiro conhecido por sua técnica impecável. Ele treinava todos os dias, dominando cada movimento, cada ajuste, cada detalhe do disparo.

Em dias calmos, acertava todos os alvos com precisão impressionante. Mas, sempre que o vento começava a soprar, algo mudava. Mesmo sabendo exatamente o que fazer, ele errava.

Frustrado, procurou um velho mestre e perguntou: “Por que erro, se sei exatamente como acertar?” O mestre respondeu: “Porque você aprendeu a atirar… mas não aprendeu a perceber o vento.” O jovem insistiu: “Mas eu não vejo o vento.” E o mestre concluiu: “Justamente por isso ele te vence.”

Você já soube exatamente o que fazer… e mesmo assim não fez?

Essa situação é mais comum do que parece. As pessoas sabem o que fazer. Sabem como atender melhor. Sabem como se comunicar melhor. Sabem como agir de forma mais estratégica. Mas, na hora decisiva, não fazem. E isso não acontece por falta de capacidade. Acontece por algo mais profundo e, muitas vezes, invisível.

A diferença entre saber e executar

Existe uma distância enorme entre saber e executar.  Saber está no campo racional. Executar acontece no campo emocional e comportamental. É por isso que alguém treinado erra sob pressão, alguém experiente trava em situações críticas e alguém competente entrega menos do que poderia. Não é falta de conhecimento. É a forma como a pessoa interpreta a situação. É o estado emocional que ela acessa naquele momento.

O fator invisível da performance

Diante de qualquer situação, três coisas acontecem rapidamente, quase automaticamente: primeiro, você interpreta o que está acontecendo; depois, essa interpretação gera um estado emocional; e, por fim, esse estado define a sua ação.

Ou seja, você não reage à realidade. Você reage à sua interpretação da realidade. E isso muda tudo. É aí que mora o verdadeiro fator invisível da performance. Duas pessoas podem viver a mesma situação e ter resultados completamente diferentes, porque interpretam de forma diferente, sentem de forma diferente e, consequentemente, agem de forma diferente.

Isto faz parte de um princípio simples, mas poderoso: se você mudar a forma como interpreta uma determinada situação, você muda o seu estado e, consequentemente, o seu resultado. Não se trata de pensamento positivo. Trata-se de entender e reconfigurar os padrões mentais que operam automaticamente dentro de você.

O piloto automático que está dirigindo sua performance

Grande parte das nossas ações não é consciente. São padrões. Respostas automáticas construídas ao longo do tempo. E o problema é que você não questiona esses padrões, apenas reage a eles. E esse piloto automático aparece em situações muito comuns do dia a dia. Por exemplo:

  • Você recebe um feedback no trabalho e, antes mesmo de refletir, já entra na defensiva, interpreta como crítica pessoal, fecha a escuta e perde a oportunidade de evoluir.
  • Ou então, diante de uma situação de pressão, você sabe exatamente o que deveria fazer, mas trava, procrastina ou toma uma decisão apressada, não porque não sabe, mas porque o estado emocional assumiu o controle.
  • Em uma conversa importante, você reage de forma impulsiva, responde no “calor do momento” e, depois, percebe que poderia ter conduzido de forma muito mais estratégica.
  • Ou ainda: evita uma conversa difícil, adia uma decisão importante ou se cala em uma reunião, não por falta de capacidade, mas por um padrão automático de evitar desconforto.

São pequenas reações, aparentemente simples, que, repetidas ao longo do tempo, constroem resultados, bons ou ruins. É por isso que, mesmo sabendo o que deveria fazer, muitas vezes você não faz. Porque, naquele momento, não é o seu conhecimento que está no comando. É o seu padrão.

Onde começa a mudança

A mudança começa com observação. A partir de hoje, quando perceber que não agiu como gostaria, pare por um instante e se pergunte: O que eu pensei naquele momento? Como interpretei a situação? Que emoção surgiu a partir disso? Como isso influenciou minha ação?

Esse simples exercício já começa a quebrar o automático. E quando você deixa de agir no piloto automático, começa a assumir o controle da sua própria performance. Esse é o tipo de padrão que venho aplicando há anos no desenvolvimento de pessoas e equipes.

Para refletir

Talvez o que esteja faltando não seja mais conhecimento. Talvez o que esteja faltando seja perceber o “vento invisível” que está influenciando suas decisões.

Porque, no final, o que determina seus resultados não é apenas o que você sabe. É o que você faz com aquilo que sabe, principalmente quando mais importa.

Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)
Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)

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