“O cansaço de tentar ser quem esperam que você seja”, por Jalme Pereira

Durante muitos anos, um ator interpretou o mesmo personagem todas as noites. Conhecia cada gesto, cada expressão, cada palavra. Sabia quando sorrir, quando demonstrar força, quando se emocionar. Com o tempo, tornou-se tão convincente que o público já não conseguia imaginar aquele homem de outra forma. O problema é que, aos poucos, ele também começou a não conseguir.

Certa noite, depois do espetáculo, permaneceu sozinho diante do espelho do camarim. Retirou a maquiagem, guardou o figurino e ficou olhando para o próprio rosto. Então percebeu algo que o assustou: sabia perfeitamente quem precisava ser no palco, mas já não tinha certeza de quem era quando a apresentação terminava.

Talvez algumas pessoas vivam assim. Não estão representando conscientemente uma mentira. Apenas passaram tanto tempo tentando corresponder ao que esperavam delas que, aos poucos, começaram a perder contato com aquilo que realmente sentem, desejam e valorizam.

Todos nós desempenhamos papéis

Ao longo da vida, aprendemos a desempenhar diferentes papéis. Somos profissionais, líderes, pais, mães, filhos, parceiros e amigos. E cada um desses lugares traz responsabilidades e expectativas. O problema começa quando um papel ocupa tanto espaço que a pessoa já não consegue perceber quem é fora dele. Existe o profissional que acredita que precisa demonstrar competência o tempo todo. O líder que sente que não pode mostrar insegurança. A pessoa forte que se acostumou a resolver os problemas de todos. O filho que não quer decepcionar. O parceiro que evita conflitos para preservar a relação.

Desde cedo, aprendemos que determinados comportamentos geram aprovação e outros provocam rejeição. Somos elogiados quando correspondemos e aceitos quando nos adaptamos. E, sem perceber, podemos começar a construir uma versão de nós orientada mais pelas expectativas externas do que pela própria referência interna. A pessoa aprende a dizer que está tudo bem quando não está. Mantém uma imagem de força mesmo quando está cansada. Evita dizer o que pensa para não decepcionar. Escolhe caminhos porque parecem corretos aos olhos dos outros, mesmo quando já não fazem sentido para ela.

Existe um cansaço que o descanso não resolve

Nem todo cansaço vem do excesso de tarefas. Existe também o desgaste de sustentar permanentemente uma versão de si. É cansativo parecer forte o tempo todo. Estar sempre disponível. Tentar não decepcionar. E esse é um tipo de cansaço que uma noite de sono nem sempre resolve. Porque o problema não está apenas no corpo. Está no esforço contínuo de sustentar uma identidade que talvez já não corresponda completamente a quem a pessoa se tornou. Existe um tipo de cansaço que o descanso não resolve: o cansaço de sustentar uma versão de si que já não combina com quem você é.

Quando a adaptação vira desconexão

Adaptar-se é uma capacidade humana importante. Precisamos compreender ambientes, ajustar comportamentos e considerar as pessoas com quem convivemos. O problema começa quando a adaptação deixa de ser uma escolha e se torna uma forma automática de existir.

A pessoa se adapta tanto que perde espontaneidade. Tenta evitar tanto a rejeição que começa a abandonar pequenas partes de si. E isso acontece aos poucos. Um caminho mantido apenas porque voltar atrás pareceria fracasso. Até que, em algum momento, surge uma pergunta desconfortável: quanto da vida que estou vivendo foi realmente escolhido por mim e quanto foi construído para corresponder ao que esperavam de mim?

Quando a referência da sua vida está sempre fora

Quando a referência da própria vida está sempre fora, a pessoa começa a avaliar suas decisões pela reação que poderão provocar nos outros. Começa a se perguntar se vão gostar, se vão entender ou o que irão pensar. Viver em sociedade exige considerar consequências e pessoas. O problema surge quando essas perguntas se tornam mais importantes do que outra, fundamental: “Isso ainda faz sentido para mim?” Porque é possível construir uma vida admirada por muita gente e, ainda assim, sentir-se estrangeiro dentro dela.

Voltar a ser uma referência para si

Reconectar-se consigo não significa ignorar responsabilidades, abandonar compromissos ou deixar de considerar as pessoas. Maturidade exige escolhas, renúncias e responsabilidade. Mas existe uma diferença entre considerar os outros e desaparecer para caber nas expectativas deles. Talvez a reconexão comece com pequenas perguntas: o que eu realmente penso sobre isso? O que estou sentindo, mas não tenho admitido? Estou fazendo essa escolha porque ela faz sentido? Se ninguém estivesse esperando nada de mim, eu ainda escolheria esse caminho? Nem sempre as respostas serão confortáveis. Mas talvez sejam necessárias.

Quem é você quando a apresentação termina?

Talvez você não precise abandonar os papéis que desempenha. Eles fazem parte de quem você é. Mas nenhum papel deveria ocupar tanto espaço a ponto de fazer você esquecer quem existe por trás dele.

Por isso, de vez em quando, talvez valha retirar simbolicamente a maquiagem, guardar o figurino e olhar para si sem a necessidade de representar força, competência, disponibilidade ou perfeição. E perguntar: “Quanto de mim ainda existe na vida que estou vivendo?” Porque o problema não está em corresponder às expectativas de algumas pessoas em alguns momentos. O problema começa quando você passa tanto tempo sendo quem esperam que seja que já não consegue reconhecer quem é quando a apresentação termina.

Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)
Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)

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