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O cantagalense Keytson Ecard Pinto tem 46 anos, nasceu em 19 de novembro de 1979, é filho de Luiz Antônio Novaes Pinto (Toti) e Marinez Ecard Pinto. Ele é casado com Thaiane e tem duas filhas: Pyetra e Kethelen.
Há onze anos Keyton foi para os Estados Unidos trabalhar e hoje tem uma empresa na cidade americana Worcester, no estado de Massachusetts.
No depoimento que concedeu à reportagem do JORNAL DA REGIÃO, diretamente dos Estados Unidos, por meio da internet, ele contou o que viveu e está passando na cidade americana.
“Há momentos em que a nossa vida muda de direção sem que a gente consiga entender, naquele instante, o motivo. Às vezes, aquilo que parece ser o fim de um caminho acaba se tornando o começo de uma história completamente nova.
Foi assim comigo.
Eu vivia no Brasil com minha esposa e minhas duas filhas e trabalhava em uma empresa. Até que, em um determinado período, a empresa passou por um corte de funcionários e eu fui dispensado.
Eu me lembro daquele dia porque ele marcou profundamente a minha vida. Voltei para casa sem emprego, preocupado e sem saber exatamente qual seria o próximo passo.
Naquele mesmo dia, na parte da tarde, recebi uma ligação de Wilson, primo da minha esposa, que já estava nos Estados Unidos.
Durante a conversa, ele me fez uma pergunta muito simples, mas que acabaria mudando completamente o rumo da minha vida:
“Você tem coragem de vir para os Estados Unidos?”
Eu respondi:
“Tenho. Hoje eu tenho coragem de ir para os Estados Unidos.”
Naquele momento, eu não fazia ideia de tudo o que existiria depois daquela resposta.
Ao mesmo tempo em que começava a surgir a possibilidade de tentar uma nova vida em outro país, minha família recebeu uma notícia muito difícil: descobrimos que minha mãe estava com câncer na laringe.
De repente, eu estava diante de duas situações enormes. De um lado, estava desempregado e tinha uma esposa e duas filhas pelas quais precisava lutar. Do outro, minha mãe enfrentava uma doença grave e precisava da família ao seu lado.
Eu morava na Bahia, em Teixeira de Freitas, e saí de lá por um período para ficar com minha mãe em Cantagalo. Ela passou pela cirurgia para retirada do tumor e eu fiquei aproximadamente seis meses acompanhando e ajudando nos cuidados dela.
Foi um período muito difícil.
Enquanto cuidava da minha mãe e acompanhava sua recuperação, também comecei a organizar os documentos para tentar o visto americano.
Era uma mistura de sentimentos. Existia a esperança de uma oportunidade nova, mas também havia a preocupação de um filho que olhava para a mãe se recuperando de um câncer e sabia que talvez precisasse deixá-la para buscar um futuro melhor para sua própria família.
Eu conversei com minha mãe. Expliquei que precisava tentar. Não estava simplesmente indo embora. Eu estava tentando construir uma oportunidade para minha esposa, para minhas filhas e para o nosso futuro.
Minha irmã ficou ao lado da minha mãe e continuou ajudando a cuidar dela. Isso me deu um pouco mais de tranquilidade para seguir.
Graças a Deus, com o passar do tempo, minha mãe se recuperou. Hoje ela está bem e venceu aquela batalha contra o câncer.
Eu e minha esposa tentamos o visto e conseguimos a aprovação.
Mas eu sabia que não tinha condições financeiras de levar minha família inteira imediatamente. Por isso, tomei outra decisão difícil: eu iria primeiro.
Sozinho.
Meu plano era chegar aos Estados Unidos, trabalhar, juntar dinheiro, me estabelecer minimamente e, depois de aproximadamente seis meses, trazer minha esposa e minhas duas filhas.
Foi assim que começou minha vida como imigrante.
Em 2015, desembarquei em Nova Iorque praticamente sem nada. Eu tinha apenas 50 dólares em um cartão que havia feito naquela época.
Cinquenta dólares.
Não falava inglês. Não conhecia a realidade daquele país. Não sabia exatamente o que encontraria pela frente.
Mas tinha disposição para trabalhar e uma razão muito grande para não desistir.
Wilson me recebeu e, de Nova Iorque, seguimos para Worcester, Massachusetts.
Eu tinha acabado de chegar a um país completamente diferente e, no dia seguinte, já comecei a trabalhar.
Meu primeiro trabalho foi na pintura.
Comecei ganhando cerca de 10 dólares por hora
A dificuldade com a língua era enorme. Tudo era novo. Para uma pessoa que chega a outro país sem falar inglês e sem conhecer como as coisas funcionam, até as situações mais simples podem se transformar em desafios.
Mas eu nunca tive vergonha de trabalhar.
Eu entendia que precisava começar de algum lugar. E, se aquele era o começo que a vida estava me oferecendo, eu iria dar o meu melhor.
Naquele período, meu maior objetivo não era comprar coisas ou conquistar bens materiais.
Era trazer minha família.
Minha esposa e minhas filhas estavam no Brasil. Além das minhas despesas aqui, eu ainda tinha responsabilidades e despesas da minha família lá.
E a saudade era muito grande.
Por isso, comecei a trabalhar o máximo que meu corpo conseguia suportar.
Eu acordava por volta das cinco horas da manhã. Às 5h40, o rapaz que trabalhava comigo passava na porta de casa para me buscar.
Eu trabalhava até aproximadamente seis horas da tarde.
Mas meu dia não terminava ali.
Quando saía daquele trabalho, seguia para outro serviço e muitas vezes trabalhava até por volta das duas horas da manhã.
Chegava em casa, tomava banho, dormia algumas horas — às vezes apenas um cochilo — e, às cinco da manhã, começava tudo novamente.
Eu dormia muito pouco.
Me alimentava mal.
Meu corpo estava cansado.
Mas minha cabeça tinha um único pensamento: eu precisava trazer minha esposa e minhas filhas.
Muita gente pode olhar para uma rotina dessas e perguntar como uma pessoa consegue suportar.
A resposta, para mim, é simples
Eu não trabalhava apenas por dinheiro.
Eu trabalhava por saudade.
Cada hora trabalhada significava um dia a menos longe da minha esposa. Cada dólar que eu conseguia guardar me aproximava do abraço das minhas filhas.
Meu planejamento inicial era ficar seis meses sozinho.
Mas eu trabalhei tanto que consegui fazer em quatro meses aquilo que imaginava que levaria seis.
Depois de apenas quatro meses nos Estados Unidos, consegui trazer minha esposa e minhas duas filhas.
Aquele reencontro mudou tudo.
Até então, eu estava sobrevivendo. Quando minha família chegou, minha vida voltou a ter sentido.
Poder abraçar minha esposa novamente, poder estar perto das minhas filhas e chegar em casa sabendo que minha família estava ali comigo transformou completamente minha experiência naquele país.
E é importante dizer que essa história não é somente minha.
Enquanto eu estava nos Estados Unidos trabalhando para abrir um caminho, minha esposa estava no Brasil cuidando das nossas filhas, segurando a nossa família e enfrentando também a distância, a insegurança e a saudade.
Ela fez parte de cada conquista.
Nós estávamos separados fisicamente durante aqueles primeiros meses, mas estávamos lutando pelo mesmo objetivo.
Minhas filhas também sempre foram uma das minhas maiores fontes de força.
Quando o cansaço chegava, eu sabia por quem estava trabalhando.
Eu queria dar a elas oportunidades. Queria construir alguma coisa que pudesse deixar para minha família. Queria que todo aquele sacrifício tivesse um significado.
Depois que minha esposa e minhas filhas chegaram, continuei trabalhando com a mesma dedicação.
Comecei na pintura, mas nunca quis parar de aprender.
Com o passar do tempo, fui adquirindo experiência em outras áreas da construção. Aprendi carpintaria, instalação de portas e janelas, pisos, acabamentos e diversos outros serviços.
Eu observava, perguntava, aprendia e trabalhava.
Sempre fui uma pessoa que, quando decide fazer alguma coisa, procura se dedicar de verdade.
Depois de aproximadamente três anos vivendo e trabalhando nos Estados Unidos, tomei outra decisão importante: abrir minha própria empresa.
Mais uma vez, comecei de baixo.
Ter uma empresa não significa que as dificuldades desaparecem. Pelo contrário. Vieram novas responsabilidades, novos desafios, clientes, contas, funcionários, compromissos e a obrigação de construir um nome baseado no trabalho.
Mas fui seguindo.
Cliente por cliente.
Obra por obra.
Aprendizado por aprendizado.
Hoje, olhando para tudo que foi construído, tenho orgulho da minha trajetória profissional. Não porque tenha sido fácil, mas justamente porque sei de onde comecei.
Eu sei que cheguei aqui com 50 dólares.
Sei quanto custaram as noites sem dormir.
Sei quantas vezes trabalhei cansado.
Sei da dificuldade de não falar inglês.
Sei da saudade.
E sei quantas pessoas fizeram parte dessa caminhada.
Mesmo com minha esposa e minhas filhas ao meu lado e com minha vida profissional crescendo, existia uma ausência que o sucesso não conseguia preencher.
Meus pais.
Eu já morava longe deles quando vivia na Bahia, mas era diferente. No Brasil, mesmo estando em outro estado ou
utra cidade, existia a sensação de que eu poderia entrar em um carro e chegar até eles.
Nos Estados Unidos, havia um oceano entre nós.
Durante anos, nosso contato foi principalmente por telefone e por chamadas de vídeo.
A tecnologia permite que a gente veja o rosto de quem ama. Permite conversar e acompanhar um pouco da vida.
Mas nenhuma tela substitui um abraço.
Depois de nove anos vivendo nos Estados Unidos, consegui realizar um sonho muito importante: minha mãe veio me visitar.
Depois de tudo que tínhamos vivido — inclusive aquele período em que cuidei dela durante o câncer antes de vir para os Estados Unidos — poder recebê-la aqui teve um significado enorme.
Ela pôde conhecer minha vida.
Pôde ver onde eu morava, conhecer melhor minha rotina e enxergar de perto aquilo que durante tantos anos eu só conseguia contar pelo telefone.
Foi maravilhoso ter minha mãe aqui.
Mas, dentro de mim, ainda faltava alguma coisa.
Eu queria meus dois pais juntos.
Meu pai não queria nem tentar o visto.
Além disso, ele tinha muito medo de avião.
Durante muito tempo, respeitei esse receio, mas nunca deixei de carregar aquele desejo.
Eu queria que ele viesse.
Não para mostrar bens materiais.
Não para provar que eu tinha vencido.
Eu queria que meu pai conhecesse a vida do filho dele.
Queria que ele visse com os próprios olhos aquilo que havia sido construído durante todos aqueles anos.
E, acima de tudo, eu queria abraçá-lo.
Depois de onze anos, aproximadamente um mês antes da viagem, tive uma conversa com ele.
Falei sobre o tempo.
Falei sobre a saudade.
Expliquei que nós precisávamos nos ver.
Onze anos tinham passado.
Eu queria poder olhar para ele de perto, abraçá-lo forte, beijá-lo e dizer pessoalmente o quanto o amava
Porque existem coisas que uma ligação não consegue entregar.
Meu pai decidiu enfrentar o medo.
E finalmente veio.
Depois de onze anos, aconteceu o reencontro que eu havia imaginado tantas vezes.
Ter meu pai e minha mãe aqui juntos foi diferente.
Quando minha mãe tinha vindo anteriormente, eu já havia vivido uma felicidade enorme. Mas agora o sonho estava completo.
Eu tinha os dois comigo.
E poder ver meus pais abraçando minha esposa e minhas filhas depois de tantos anos foi uma das maiores emoções da minha vida.
Quando saímos do Brasil, minhas filhas eram muito pequenas. Uma tinha por volta de três ou quatro anos e a outra tinha aproximadamente dois anos.
Onze anos se passaram.
Meus pais acompanharam o crescimento delas principalmente por fotografias, vídeos e chamadas.
Agora podiam olhar para as netas de perto.
Podiam conversar, tocar, abraçar.
Meu pai ficou muito feliz e também muito impressionado com tudo que viu.
Para ele, muitas coisas eram novas.
E acredito que essa visita também permitiu que ele entendesse um pouco melhor a realidade da vida de um imigrante nos Estados Unidos.
Quem está no Brasil ou em outros países muitas vezes enxerga somente o resultado.
Vê uma casa, um carro, uma empresa, uma viagem, uma fotografia bonita ou alguma conquista.
Mas dificilmente consegue enxergar todas as horas de trabalho que vieram antes.
Não vê as madrugadas.
Não vê o cansaço.
Não vê a preocupação
Não vê as vezes em que você gostaria de estar presente em um aniversário, em uma comemoração ou simplesmente sentado à mesa com seus pais, mas está a milhares de quilômetros de distância.
A vida do imigrante não é uma vida fácil.
Existem oportunidades, sim.
Existem conquistas.
Mas existem também muitas renúncias.
Eu construí minha história trabalhando. Nunca tive vergonha de começar de baixo e nunca achei que algum trabalho honesto fosse pequeno demais para mim.
A pintura foi a porta que se abriu quando cheguei. Eu entrei por aquela porta, trabalhei, aprendi, cresci, ampliei meus conhecimentos e depois construí minha própria empresa.
Mas nenhuma dessas conquistas teria o mesmo valor se eu não pudesse compartilhá-las com minha família.
Hoje, quando olho para trás, penso naquele homem que voltou para casa depois de ser demitido e, naquela mesma tarde, recebeu uma ligação com uma pergunta:
“Você tem coragem de vir para os Estados Unidos?”
Naquele dia eu disse que tinha.
Mas eu não sabia exatamente que tipo de coragem seria necessária.
Não sabia que teria que deixar uma mãe se recuperando de um câncer.
Não sabia como seria deixar minha esposa e minhas filhas no Brasil.
Não sabia que dormiria tão pouco.
Não sabia como seria viver sem falar a língua.
Não sabia quantas vezes sentiria saudade.
Não sabia quantas dificuldades enfrentaria para construir uma vida do zero.
Eu simplesmente fui.
Com 50 dólares, uma oportunidade, fé em Deus, disposição para trabalhar e uma família que me dava motivos para continuar.
Hoje entendo que coragem não é não ter medo.
Coragem é seguir mesmo quando existe medo.
É continuar quando o corpo está cansado porque existe alguém esperando por você.
É começar de baixo sem ter vergonha.
É aprender.
É cair e levantar.
É acreditar que aquilo que você está plantando hoje poderá transformar a vida da sua família amanhã.
Meus pais sempre foram referências na minha vida. Minha esposa esteve comigo nessa caminhada. Minhas filhas foram combustível para que eu continuasse. Minha irmã esteve ao lado da minha mãe quando eu precisei partir. E Wilson, com uma simples ligação naquele dia tão difícil, acabou participando do início de uma mudança que transformaria toda a minha história.
Por isso, não considero essa uma história apenas de sucesso profissional.
É uma história de família.
De fé.
De trabalho.
De renúncia.
De gratidão.
E, principalmente, de saudade e reencontro.
Talvez uma das maiores lições que esses onze anos tenham me ensinado seja que podemos recuperar dinheiro, reconstruir uma empresa, começar outro projeto e buscar novas conquistas.
Mas o tempo não volta.
Por isso, depois de onze anos, poder ter meus pais aqui juntos, abraçá-los e vê-los ao lado da minha esposa e das minhas filhas teve um valor que nenhum dinheiro poderia comprar.
Se alguém olhar para minha história e enxergar apenas aquilo que consegui construir nos Estados Unidos, estará vendo somente uma pequena parte dela.
Minha maior conquista não é aquilo que possuo.
É olhar para minha família e saber por quem lutei.
É poder olhar para meus pais e dizer:
“Tudo aquilo que eu passei também teve vocês como motivo.”
E se minha trajetória puder deixar alguma mensagem para outros imigrantes ou para qualquer pessoa que esteja enfrentando um momento difícil, é esta:
Às vezes, aquilo que parece o fim pode ser apenas o começo de uma nova história.
Tenha coragem para recomeçar. Trabalhe com honestidade. Não tenha vergonha de começar de baixo. Valorize quem esteve ao seu lado quando você ainda não tinha nada para mostrar. Não esqueça suas raízes. E, acima de tudo, não espere demais para abraçar e dizer que ama as pessoas que são importantes para você.
Porque, depois de todas as lutas e conquistas, são esses abraços que fazem tudo valer a pena”.



