“Por que as pessoas não fazem o que sabem que deveriam fazer”, por Jalme Pereira

Conta-se que um músico talentoso se preparava para uma grande apresentação. Ele conhecia perfeitamente a partitura. Havia treinado durante meses. Sabia exatamente onde precisava colocar as mãos, quando acelerar ou quando reduzir o ritmo.

Mas havia um problema. Toda vez que chegava a uma determinada passagem da música, errava. Não importava quantas vezes treinasse. Não importava o quanto estudasse. Quando aquele trecho se aproximava, ele hesitava. E, ao hesitar, errava novamente.

Frustrado, começou a treinar ainda mais. Mas, quanto mais tentava evitar o erro, mais tensão criava. Até perceber algo desconfortável: o problema não era falta de conhecimento. Era o medo de errar novamente que fazia com que ele repetisse exatamente o mesmo erro.

Você já soube exatamente o que fazer… e mesmo assim não fez?

Se isso já aconteceu com você, talvez tenha pensado que o problema era falta de disciplina. Mas, na maioria das vezes, não é. As pessoas sabem o que fazer. Sabem como melhorar. Sabem o que precisa ser feito. E, mesmo assim, não fazem. Não por falta de capacidade. Mas porque algo dentro delas interfere, silenciosamente.

Por que disciplina nem sempre resolve

Durante muito tempo, fomos ensinados que tudo se resolve com mais esforço: “você precisa ter mais foco”, “precisa ter mais disciplina”, “precisa se dedicar mais”. Mas, se fosse apenas isso, seria muito simples mudar. Bastaria saber o que fazer e simplesmente fazer.

Só que não é isso que acontece. Pessoas inteligentes, experientes e capacitadas continuam adiando decisões importantes, repetindo comportamentos que não querem e deixando de fazer aquilo que sabem que faria diferença. Isso não é falta de disciplina. É um conflito interno.

A autossabotagem silenciosa

É claro que nem todo problema de execução está ligado ao comportamento inconsciente. O consultor empresarial Ram Charan defende que, muitas vezes, as pessoas não fazem o que precisa ser feito por razões objetivas: porque não querem, porque não sabem, porque faltam recursos ou processos adequados ou, ainda, porque estão desalinhadas da função que ocupam.  E tudo isso faz sentido. Mas existe uma situação ainda mais intrigante: quando a pessoa quer, sabe, possui recursos e, mesmo assim, continua não fazendo.

É nesse ponto que entram os padrões inconscientes e a autossabotagem: um mecanismo interno que atua silenciosamente contra você, mesmo quando existe vontade de avançar. E, na maioria das vezes, ele não aparece de forma evidente. Surge disfarçado de justificativas aparentemente racionais, como: “agora não é o melhor momento”, “depois eu faço com mais calma” ou “preciso me preparar melhor antes”.

Na superfície, parece prudência. Mas, no fundo, é apenas um padrão tentando manter você no mesmo lugar. Porque avançar exige desconforto. E a mente humana, muitas vezes, escolhe proteção em vez de evolução.

Quando o automático assume o controle

Grande parte do seu comportamento não é uma decisão consciente. É padrão. São respostas automáticas que foram sendo construídas ao longo do tempo e que hoje operam sem que você perceba. Você não decide evitar uma conversa difícil, você simplesmente evita. Você não escolhe procrastinar, você apenas adia. Você não analisa profundamente antes de reagir, você simplesmente reage. E, na maioria das vezes, só percebe depois.

O loop que mantém tudo igual

Por trás disso, existe um ciclo que se repete: você interpreta uma situação, essa interpretação gera uma emoção, essa emoção direciona sua ação, essa ação gera um resultado e esse resultado reforça o padrão. Mesmo quando o resultado não é o que você quer. Porque o padrão continua operando. Esse é o loop invisível que mantém as pessoas presas aos mesmos comportamentos, mesmo sabendo que deveriam agir diferente.

Por que conhecimento não é suficiente

Saber não garante ação. Porque o conhecimento não entra em campo sozinho. Quem entra em campo é o seu estado emocional. É a sua interpretação. É o seu padrão. Por isso, nos momentos decisivos, você não age com base no que sabe. Você age com base no que está automatizado dentro de você.

Onde começa a mudança

A mudança não começa com mais esforço. Começa com mais consciência. Quando você percebe o padrão, você cria uma pausa. E, nessa pausa, surge uma possibilidade de escolha.

A partir de agora, experimente algo simples. Quando perceber que está adiando algo importante, pergunte-se: o que estou evitando sentir? Como estou interpretando essa situação? Esse comportamento está me protegendo ou me limitando? Essas perguntas começam a quebrar o automático. E, aos poucos, você deixa de repetir os mesmos bloqueios emocionais que sabotam a sua execução. Porque, muitas vezes, o problema não está em não saber a “música”. Está na tensão criada pelo medo de errar novamente.

Quando o erro deixa de ser técnico

Talvez o problema não seja falta de disciplina. Talvez o problema seja o medo inconsciente de errar novamente. Porque, no final, as pessoas não deixam de fazer o que sabem por falta de capacidade. Muitas vezes, deixam de fazer porque existe um padrão interno interferindo na execução. Como o músico que conhecia perfeitamente a partitura, mas travava exatamente no trecho em que mais temia falhar. E enquanto esse padrão continuar automático… a mesma “nota errada” continuará se repetindo.

Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)
Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)

 

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