“Reminiscências”, por Julio Carvalho

Aproveitando a calmaria da manhã do último sábado, resolvi consultar algumas pastas que guardo no meu arquivo; puxei uma, aleatoriamente, saindo a de 1989, com a etiqueta: Correspondência Recebida. Na capa de cartolina, cor bege, uma etiqueta redonda com a frase “O Brasil precisa de Aureliano”. Quem era esse cidadão?

Em 31 de março de 1964, os militares afastaram o Presidente João Goulart e ocuparam a presidência da República durante 21 anos, passando pelo cargo 5 generais eleitos pelo voto indireto. Aureliano Chaves foi o vice-presidente do último general presidente, tendo ocupado a Presidência da República em duas oportunidades (dois meses e, depois, um mês), por motivo de doença do titular do posto máximo da República. Era um engenheiro, nascido em Minas Gerais, eleito para vários cargos políticos: vereador, prefeito, deputado estadual e deputado federal. Cidadão católico, nacionalista e de personalidade firme. O povo saturado dos governos militares e de suas arbitrariedades, desejava um presidente civil, surgindo um movimento a favor de Aureliano Chaves. Foi só um sonho, pois quem chegou ao cargo foi José Sarney.

Em 1989, exercia o cargo de vereador da Câmara Municipal de Cantagalo pela primeira vez; era o primeiro ano, caminhava com cuidado por uma estrada pouco conhecida. As primeiras correspondências que encontrei na pasta, por ordem cronológica, eram oficiais: do presidente da câmara, do prefeito, da secretária de educação e de alguns funcionários da prefeitura.

Depois desse início oficial, encontrei, datada de 22 de maio de 1989, uma pequena carta, quase um bilhete, assinada pelo amigo Geraldo, agradecendo o envio do Boletim Informativo de minhas atividades na Câmara Municipal, oferecendo-se para ajudar-me no que for possível. Quem era esse Geraldo?

Geraldo Arruda Figueredo (não está errado), cantagalense dos mais ilustres, nascido em 11 de fevereiro de 1935, filho de Bertholino Cannes Figueredo e Elvira Arruda Figueredo. Meu colega de ginasial e meu amigo durante oitenta anos.

Em Cantagalo passou uma infância e adolescência difíceis, principalmente quando o pai ficou desempregado; todavia, com muita luta, trabalho e união da família, tudo foi superado.

Cidadão possuidor de uma inteligência privilegiada, foi o melhor aluno de todo o período do ginasial. O mesmo ocorrendo no curso de contabilidade. Em Niterói, cursou a faculdade de Direito da UFF. Período em que trabalhava em um cartório na Av. Amaral Peixoto.

Diplomado, foi advogado da Companhia Brasileira de Energia Elétrica, chegando à chefia desse setor.
Aprovado em concurso público, passou a ser procurador do Estado do Rio de Janeiro. Ocupando, no governo de Benedita Silva, o cargo de Procurador-Geral da Justiça.

Nossa amizade era tão grande que Geraldo dizia que ”éramos irmãos por opção”.
Há cerca de dois anos, faleceu, em Niterói, vítima de um tumor cerebral inoperável. Deixou a viúva e três filhos, uma dentista, um advogado e um comerciante.

Apesar da projeção alcançada na área jurídica, meu amigo Geraldo jamais abandonou a simplicidade, a educação, o amor a Cantagalo e a honestidade em todos os seus atos. A maior herança deixada para a família foi um nome honrado e admirado por todos que tiveram a felicidade de conhecê-lo.

Viro mais uma folha e encontro uma longa carta de outro cantagalense notável do mundo atual, Dr. Edmo Rodrigues Lutterbach, nascido na fazenda da Saudade, mesmo local em que Euclides da Cunha veio ao mundo.

Edmo também foi meu colega de turma durante sete anos no extinto Colégio Euclides da Cunha, quatro no ginasial e três no científico. Diplomado advogado pela Faculdade Fluminense de Direito, ingressou no Ministério Público fluminense, por concurso, onde exerceu funções importantíssimas.

Era um grande conhecedor da vida e obra de Euclides da Cunha, realizando conferências em diversos pontos do país sobre o autor de Os Sertões.

Nascido no dia 12 de outubro, no mesmo dia em que foi inaugurado, no Rio de Janeiro, o monumento no Corcovado, brincava que era da idade do Cristo Redentor, embora o Cristo estivesse com a saúde melhor do que a dele.
Anualmente, comemorava seu aniversário natalício em sua fazenda, onde mantinha uma enorme biblioteca.

Participavam da festa seus parentes, convidados de Cantagalo e Niterói, onde Dr. Edmo era pessoa de destaque no meio cultural, presidindo por vários anos a Academia Fluminense de Letras; ao mesmo tempo, figurava como membro de diversas academias de letras, havendo fundado a Academia Cantagalense de Letras, no dia 07 de outubro de 1989, à noite, no salão do Fraterno Auxílio Cristão.

Dr. Edmo faleceu há cerca de cinco anos vítima de um acidente vascular cerebral, em Niterói, sendo sepultado em Macuco, junto aos seus antepassados.

Continuando o passeio pela pasta de 1989, encontro a carta de outro grande amigo, também colega durante sete anos, Celso da Costa Frauches. Pessoa maravilhosa, inteligente, possuidor de ótima cultura, que pretendia ser advogado, optando, todavia, pela comunicação através do rádio e da imprensa.

Muito jovem foi secretário do seu pai, Prefeito Henrique Luiz Frauches; seguindo para Niterói, passou a ser funcionário da Assembleia Fluminense até ser aposentado.

Irrequieto como sempre fora, segue para Brasília, ocupa o cargo de assessor do ministro da educação, onde em contato e muito estudo com múltiplos processos, adquire vastíssimo conhecimento sobre os meandros educacionais, passando, a seguir, a ser orientador de diversas escolas situadas em pontos diferentes do solo brasileiro.
Nesta missiva, Celso comunica a criação de um escritório para cuidar dos interesses das escolas, faculdade e universidades brasileiras, colocando-se à disposição do Hospital de Cantagalo, gratuitamente, para resolver problemas junto às repartições federais.

Afirma, também, que pretende permanecer em Brasília definitivamente; o que não aconteceu, pois Celso retornou a Cantagalo, onde criou o Instituto Mão de Luva, com o objetivo de pesquisas históricas sobre nossa terra.
Lançamos juntos o primeiro volume do livro Viajando pelo Tempo, esgotado rapidamente. Celso, com seu entusiasmo costumeiro, estava preparando o segundo volume, quando veio a falecer na UTI do Hospital da Unimed, em Nova Friburgo.

Ainda encontrei uma pequena carta, quase um bilhete, vindo de Itaocara, datado de 29 de setembro de 1989, assinada por um colega que eu muito admirava pela sua cultura médica e geral, Dr. José Maria dos Santos Faria.
Cidadão que jamais abandonou a localidade que lhe serviu de berço, onde nasceu em um dia 22 de maio, às 10 horas. Certa vez, era médico efetivo da E. F. Leopoldina, setor de acidentes, o governo de Jânio Quadros extinguiu o ramal ferroviário de nossa região, sendo o Dr. José Maria foi transferido para Itaboraí, o mesmo preferiu abdicar do emprego a deixar Boa Sorte.

Numa ocasião anterior, meu pai estava com excesso de trabalho médico em Cantagalo, convidou Dr. José Maria para transferir a residência para Cantagalo, onde os dois trabalhariam. O convite foi aceito, meu pai reservou uma boa residência para o colega durante dois meses; no final, foi procurado pelo Dr. José Maria que se desculpou dizendo que não tinha coragem de abandonar Boa Sorte.

Esse colega participou da política cantagalense, sendo eleito vereador pela U.D.N.. Na câmara defendeu, arduamente, os interesses de Cantagalo e do nosso povo.

Faleceu com quase cem anos, estando sepultado no 5º distrito de Cantagalo, que tanto amou e jamais abandonou. Como justíssima homenagem, o posto de saúde de Boa Sorte recebeu o seu nome.

Observei que os signatários de todos os documentos oficiais e de amigos, arquivados na pasta de 1989, já partiram para a eternidade. Cheguei à conclusão de que estou me tornando um dinossauro, como costuma dizer um antigo colega da Federação Unimed.

Só me resta agradecer, pois “O Senhor é a luz do meu caminho”.

Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo e atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo
Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo. Atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo e vice-prefeito de Cantagalo.

                      

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