“Sua cidade também está em alto volume?”, por Amanda de Moraes
Produzimos barulho (e muito). Quem vive na cidade é obrigado a partilhar a vida com isso. Carros estão sempre buzinando, obras crescendo, cidade a todo o vapor. Uns turbilhões de sons invadem o nosso espaço individual a qualquer minuto. Somado a isso, algumas pessoas se esforçam para aumentar o caos. Existem os aficionados por motos barulhentas. Pois é, acredite: estes alteram o escapamento para produzir mais ruído. Outros aparelham seus carros com caixa de som, para que todos ao seu redor sejam obrigados a escutarem a música, como se fossem trios elétricos. Isso sem contar os estabelecimentos que aderem à moda do volume “no doze”.
Quando se fala em poluição, nosso pensamento vai automaticamente para dejetos, sujeira, esgoto, ar contaminado. Acabamos por deixar de lado a poluição sonora, que é altamente prejudicial à saúde. É preciso falar sobre isso. O excesso de barulho deixou de ser um mero transtorno urbano. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a poluição sonora é o segundo maior risco ambiental para o bem-estar, superada apenas pela poluição do ar.
Os prejuízos são inúmeros e estão muito além de serem um incômodo passageiro. Além da irritabilidade, gera ansiedade, distúrbio do sono, dores de cabeça, reduz a capacidade de concentração e o desempenho no trabalho e nos estudos, além de prejudicar o desenvolvimento cognitivo e a aprendizagem de crianças e adolescentes.
Em longo prazo, pode causar zumbido, perda auditiva, aumento da pressão arterial e elevar o risco de doenças cardiovasculares e metabólicas. Mais do que um desconforto cotidiano, o barulho excessivo interfere na saúde física e mental, na convivência social e na qualidade de vida. Além disso, para pessoas com deficiência, como o Transtorno do Espectro Autista, a situação pode ser ainda mais dramática.
Além da vida humana, é preciso lembrar que dividimos esse planeta com outras espécies. Cães e gatos, nossos grandes companheiros, possuem uma audição muito mais sensível. Ruídos causam dor, medo e problemas cognitivos em animais confinados. As aves têm sua comunicação prejudicada, dificultando o canto utilizado para atrair parceiros, defender território e alertar sobre predadores. Muitas espécies abandonam áreas excessivamente barulhentas, comprometendo reprodução e alimentação. Assim, a poluição sonora afeta a qualidade de vida das pessoas, desequilibra ecossistemas e ameaça a biodiversidade.
Quão desconectados estamos para não perceber isso? Certa vez, entrei em um restaurante, com música alta, que se transformava em uma balada. No centro dele, havia um tanque com carpas coloridas. Toda aquela sonoridade gerava um enorme estresse para os animais. Por que o tema poluição sonora ainda não é visto como um ato de violência?
Outra discussão está nos bairros, entre moradores, tentando ter paz em casa, apesar de os bares insistirem em colocar música alta até à madrugada. Em meio ao debate, vêm as declarações em defesa do botequim: “Deixem as pessoas se divertirem”.
É claro que, no centro urbano, o silêncio absoluto é uma fantasia. Porém, uma cidade minimamente respeitosa, que assegure qualidade de vida, é direito do povo. Aos sensatos (aqui se incluem as autoridades): podemos pensar em como as nossas atitudes contribuem para essa desordem sonora? Isso! Pensar além do próprio umbigo; pensar no coletivo, para acima de tudo entendermos que poluição sonora pode causar males irreversíveis à vida do próximo.
