“Ilustre cantagalense”, por Julio Carvalho

Com profunda tristeza tomei conhecimento do falecimento do Dr. Clélio Erthal, um dos mais ilustres cantagalenses de nosso tempo, defensor de todas as causas de interesse e de valor para nossa terra.

Em 1948, ao ingressar no curso ginasial do extinto Colégio Euclides da Cunha, havia, no quarto ano, um jovem de biotipo diferente dos demais colegas; era longilíneo, pele muito branca e cabelos alourados, enquanto a maioria da turma era morena e de cabelos pretos, características que herdamos de nossos antepassados. Procurei saber quem era, sendo informado que era o Clélio Erthal, descendente de alemães. Estava tudo explicado.

Concluído o ginasial, o suíço-alemão partiu para Niterói, continuando seus estudos no Colégio Bittencourt Silva; a seguir, ingressou na Faculdade de Direito da UFF, bacharelando-se em 1957.

Cidadão do interior, foi para Itaocara, sendo eleito vereador, cumprindo mandato legislativo no período de 1959 a 1962. A seguir, foi eleito Vice-Prefeito para o período de 1963 a 1966.

Jovem inteligente, percebendo que o campo jurídico é bem mais fértil que o político, retornou a Niterói, onde passou a ocupar a Chefia do Departamento Jurídico do Instituto de Contabilidade, ocasião em que presta concurso para o cargo de advogado do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), classificando-se em 3º lugar. Nesse importante órgão ocupou os cargos de Assessor do Departamento Jurídico e Chefe da Divisão de Contratos.

Procurando sempre evoluir, Dr. Clélio Erthal prestou novo concurso público, classificando-se em 4º lugar, passando a ocupar o cargo de Procurador da República. Representou o órgão até a fusão dos estados da Guanabara e Rio de Janeiro.

Em 1979, o Tribunal federal de Recursos realizou concurso público, no qual o cantagalense Dr. Clélio Erthal classificou-se em 5º lugar, ingressando na magistratura federal. Como juiz federal por duas vezes foi Diretor do Foro da Seção Judiciária do Rio de Janeiro, sendo o responsável pela construção dos prédios denominados anexos I e II da Justiça Federal da cidade do Rio de Janeiro.

Em 1989, nomeado Desembargador Federal passou a ser membro do Tribunal Regional Federal da 2ª Região. Foi membro das Comissões do Primeiro e Quinto Concurso para Juízes Federais Substitutos.

Aposentou-se em 1998, todavia, por escolha do Plenário da Corte, ocupou os cargos de Diretor de Relações Públicas e de Diretor da Revista da Escola da Magistratura Regional Federal.

Sua atuação na Justiça Federal sempre foi alicerçada no ótimo conhecimento jurídico e no equilíbrio pessoal. O desembargador Clélio Erthal deixou alguns trabalhos jurídicos publicados, a saber:

° Prescrição e Decadência no Anteprojeto do Código Civil.

° A Decadência e a Prescrição do Código Tributário Nacional.

° A Odisseia de uma Escola de Magistrados.

Como médico não tenho conhecimentos para avaliar esses trabalhos jurídicos do Desembargador Clélio Erthal; todavia, como leitor, fui sempre um admirador do seu trabalho literário.

No dia 1º de agosto de 1992, lançou no Cantagalo Turismo Hotel, à noite, o livro CANTAGALO – Da Miragem do Ouro ao Esplendor do Café. Neste evento estava o historiador, de modo simples, acolhendo com carinho os conterrâneos e os amigos que lá compareceram em busca do mais completo livro sobre a história de nossa terra.

Em 2001, em uma certa manhã, chegou a minha residência o Dr. Clélio, acompanhado de um primo, também advogado; depois de conversar durante algum tempo ele me comunicou que estava preparando um segundo livro sobre Cantagalo, necessitando de um retrato do meu pai, que fora Prefeito Municipal de 1944-46. Atendida a solicitação, pediu-me leva-lo à Câmara Municipal para examinar os livros de atas e outros documentos, para pesquisar passagens da história de Cantagalo.

No dia seguinte, chegando à Câmara, onde eu estava como vereador, perguntei se ele precisava do auxílio de algum funcionário. Ele me respondeu que não, que seria auxiliado pela esposa.

Sentou-se em uma mesa e recebeu o primeiro grande livro; foi lendo pacientemente. Quando encontrava alguma coisa de interesse ditava para esposa, sentada ao seu lado, que anotava em um caderno, manuscritamente, com um lápis. 

Nessa ocasião, me contou que os dados para o primeiro livro ele encontrou quase tudo no Arquivo Nacional; todavia, com a proclamação da república, quase nada havia sobre Cantagalo nesse órgão do governo. Ele acreditava que isso ocorreu por ser Cantagalo um município que apoiava o Imperador Pedro II. Terminou dizendo-me: “Foi como se Cantagalo tivesse desaparecido!”.

No dia 22 de abril de 2004, lançou o segundo livro em Niterói, no Clube Central, em Icaraí, à noite. Com receio de ficar sem o segundo livro, tamanho o sucesso do primeiro, segui para o local. 

A colônia cantagalense residente em Niterói, compareceu maciçamente. Dessa noite tenho uma fotografia do Dr. Clélio Erthal ladeado por mim e pelo Dr. Geraldo Arruda Figueredo, outro conterrâneo que brilhou na justiça do nosso estado, chegando a Procurador Geral da Justiça Fluminense.

Este segundo livro, recebeu o título de CANTAGALO – do surto da pecuária à industrialização do calcáreo. Os dois volumes formam a documentação mais completa sobre a história do nosso município, graças ao trabalho de pesquisa do Desembargador Federal Dr. Clélio Erthal no Arquivo Nacional, na Biblioteca Nacional e no arquivo da Câmara Municipal de Cantagalo.

Durante algum tempo Dr.Clélio colaborou com o Jornal da Região, publicando excelentes artigos. Tenho arquivado, já amarelecidos, vinte desses artigos, verdadeiras peças literárias. Em 2019, encontrei numa livraria, em Niterói, um livro do Dr. Clélio, coletânea dos artigos publicados no Jornal da Região, com o título: Retalhos da História Cantagalense, tendo na capa a fotografia do Santuário Diocesano do Santíssimo Sacramento, obra de outro cantagalense, Gabriel Monnerat, neto do meu prezado colega Dr. Amadeo Carriello Correa.

O Desembargador Clelio Erthal escreveu consistentes trabalhos em defesa dos interesses de Cantagalo, quando municípios vizinhos, audaciosos e ambiciosos, quiseram se apossar das três fábricas de cimento que estão em território cantagalense, situação que foi terminar em Brasília, com decisão histórica do Supremo Tribunal Federal favorável a Cantagalo. 

Por todo trabalho do Desembargador Clélio Erthal espero que algum dia o poder público lembre-se de perpetuar seu nome em alguma localidade ou imóvel público cantagalense. Será uma questão de justiça por quem tanto lutou e amou Cantagalo!

Júlio Carvalho.

Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo e atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo
Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo. Atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo e vice-prefeito de Cantagalo

 

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