Quando somos crianças e adolescentes, absorvemos mais o mundo. Captamos as palavras dos adultos, aprendemos com comerciais, entendemos a sociedade a partir de valores morais que nos são passados através de gerações. Nessa fase, somos esponjas, captando e sentindo cada parte do que nos é apresentado.
Seres humanos de diferentes países pensam diferente, por vários fatores, como a cultura. Apesar de ser o mesmo país, a depender da família em que se nasce, criam-se visões de mundo completamente distintas. A partir do que se consome, como livros e filmes, vamos sendo moldados, tais qual uma massa a partir das técnicas de um padeiro.
Atenção: não é creditar a inteira responsabilidade por quem somos ao mundo externo, mas reconhecer que há uma parcela de influência.
Nessa direção, principalmente para as mulheres, conseguimos compreender um pouco mais por que tantas resumem todo o projeto de uma vida a uma relação amorosa. Indo um pouco para o senso comum, quando se conversa sobre as dores e anseios femininos, com diferentes pessoas, geralmente há mais de uma com um ponto de convergência sobre a realização de vida: relacionamento amoroso.
Por que não conseguem encontrar o príncipe que, lá nos tempos de infância, foi tão prometido a toda princesa? Assim, a vida passa a ter um hiperfoco: um parceiro.
Desde a infância, são ensinadas para o casamento, brincar de casinha e aprender questões voltadas à construção de uma família; no entanto, assim, o universo, tão gigante, começa a se restringir. Ficar pequeno. Afunilar-se em um único caminho, como fator de realização própria.
E educação, seja em casa, na escola, pela cultura em geral, as mulheres crescem consumindo histórias em que a validação máxima é ser escolhida por um homem. Aprendem a cuidar, esperar, agradar, sustentar emocionalmente.
Por outro lado, o universo masculino parece olhar o matrimônio de uma perspectiva um pouco peculiar. Muitos homens foram incentivados, desde pequenos, a ocuparem o mundo. Cedo, aprendem a criar hobbies, grupos, competições, rituais de amizade e espaços próprios: futebol, videogame, bar, academia, viagens, projetos, trabalho, política, música. O afeto entre esses homens, embora muitas vezes menos verbalizado, aparece na convivência constante e nas experiências compartilhadas.
Enquanto eles são ensinados a construir uma vida e encaixar alguém nela, muitas mulheres são ensinadas a construir a si mesmas ao redor de alguém. Está longe de ser mero acaso ou biologia. Foram ensinadas a serem assim, a partir de pequenos detalhes, olhares, exemplos do cotidiano. E assim, passaram a buscar isso na vida, como objetivo, validação e pertencimento máximos.
Como mulheres brilhantes, inteligentes e talentosas acabam por reduzir a própria energia emocional à espera de mensagens, sinais, retornos ou reconhecimento masculino, que, muitas vezes, vem de um homem pífio, sem que exista ali qualquer noção sobre “sentir-se realizada em vida”?
Apesar disso, quando alguém se sente realizado de fato? Quando se aprende a gostar da própria companhia. Quando se aprende a amar a si mesmo. Quando se está preenchida de si. É a partir daí que o outro vem para somar, para agregar, para florescer. Para encontrar algo que realmente valha a pena, é preciso saber ficar sozinha até que chegue até você.
Mulheres que conseguem romper a lógica de um parceiro como principal fator da vida passam por uma reconstrução interna: aprendem a criar prazer sem depender de validação romântica. Desenvolvem projetos, comunidade, autonomia emocional e identidade própria. E, curiosamente, quando isso acontece, o amor deixa de ser uma necessidade desesperada e passa a ser escolha.
É preciso mudar o olhar sobre a vida. Entender que ela ainda é bela com ou sem o um parceiro. E, quando encontrar algo que seja realmente digno da mulher que você é, poderá partilhar o seu mundo, construído por você, sem medo do abandono. E se o amor que sentir por si for grandioso, somente uma pessoa igualmente grandiosa poderá sentar-se à mesa da sua vida.
