“O casarão da praça”, por Julio Carvalho

No artigo publicado no dia 25 de junho último, na edição nº 1836 do Jornal da região, com o título “As muretas do jardim e a Escola Lameira de Andrade”, citei o casarão, existente na nossa praça principal, que fora trocado pelo cemitério velho de Cantagalo. Creio, todavia, que esse prédio, por ser um dos mais históricos de nosso município merece um artigo à parte.

Consta que o primeiro prefeito de Cantagalo, Sr. Alberto Augusto Thomaz tenha nascido nele. Considero estranho, uma vez que este cantagalense foi prefeito em 1923, enquanto no prédio existe a data de 1924, provavelmente a construção. Creio que o nosso primeiro prefeito tenha nascido em alguma casa preexistente naquela local.

Por citar o primeiro prefeito convém lembrar que a sua filha, a Profa. Amélia Thomaz, minha querida mestra durante 11 anos e minha cliente até falecer, contava que seu pai renunciou ao cargo ao sentir que no seu governo ocorria corrupção, portanto este crime não é de hoje, ocorre no Brasil há muito tempo. Coitado do Brasil e do nosso povo!

Conforme a tradição oral, neste secular imóvel funcionou durante algum tempo um estabelecimento estadual de ensino; todavia, na minha infância, na década de 1940, ele se encontrava completamente abandonado, permanecia com sua porta principal aberta, algumas janelas danificadas e com os vidros quebrados, parte do telhado, à direita de quem nele penetrasse, já havia ruido. Servia de abrigo para alcóolatras e outras pessoas que perambulavam pelas ruas da cidade sem destino certo. Foi nessas condições e nessa época que ocorreu a permuta pelo cemitério velho.

De posse do prédio cabia à prefeitura a sua recuperação a fim de utiliza-lo e corrigir aquele aspecto de total abandono público ao lado do jardim da cidade, todavia a prefeitura vivia um momento de enorme pobreza financeira, o mundo estava na terrível e devastadora segunda guerra mundial, enquanto Cantagalo permanecia esquecido pelo governo estadual, sediado em Niterói.

O prefeito de Cantagalo, Dr. Carvalho, resolveu apelar para a colaboração pública. Preparou na PMC uma subscrição popular com o seguinte preâmbulo:

“Tendo sido criado por portaria do Exmo. Sr. Ministro da Guerra, o Tiro de Guerra Nº. 119, neste município, e necessitando o Governo Municipal reformar o prédio do antigo Grupo Escolar, não só para a instalação do referido TIRO, como também da Associação Rural de Cantagalo e, ainda, de uma Biblioteca Pública Municipal, espera o Governo do Município a colaboração valiosa dos bons cantagalenses, a fim de poder realizar tão indispensáveis melhoramentos para a gloriosa Terra de Cantagalo, visto não dispor de verba necessária no seu total para tão grandes e urgentes realizações.

Cantagalo, 8 de fevereiro de 1947. 

Visto: Joaquim de Souza Carvalho Junior

      (Prefeito Municipal).”

 

Pacientemente, o Dr. Carvalho procurou os proprietários rurais do município, os comerciantes da cidade (a maioria libanesa) e diversos clientes. No final, conseguiu a colaboração de 81 pessoas, com contribuições que variaram de Cr$. 2.000,00 a Cr$. 200,00, contribuindo, cada um, de acordo com sua situação financeira.

As contribuições somaram Cr$. 33.600,00 que permitiram, com alguma  participação financeira municipal, recuperar o velho prédio, que passou a ter um aspecto de novo, abrigando, à esquerda, o Tiro de Guerra 119; enquanto, à direita, recebeu uma repartição do Ministério da Agricultura, dedicada à vacinação dos rebanhos do município e orientação dos proprietários rurais, no sentido de manter o estado hígido de seus animais, construir estábulos, canaviais e  capineiras para alimentação do gado leiteiro nos períodos de estiagem.

Esta última durou poucos anos, por motivos de ordem política, foi transferida para Cordeiro, depois para Nova Friburgo, sendo extinta alguns anos depois.

O Tiro de Guerra 119 teve existência mais longa, sobreviveu até 1955, preparando centenas de reservistas de segunda categoria. Seu último instrutor foi a Sargento Waldir Benício de Almeida, que residia com a família na parte posterior do prédio. Era um homem esforçado, estudou e completou o Curso Científico em Cantagalo, foi transferido para Sorocaba, onde foi diplomado em Odontologia. Terminando sua vida militar como odontólogo de um batalhão sediado em Petrópolis no posto de 1º Tenente do Corpo de Saúde do Exército do Brasil.

Extintas as duas repartições federais, o prédio passou a ser utilizado pela PMC; todavia no meado da década de 1950, o Dr. Messias de Moraes Teixeira, cantagalense que residia em Nova Friburgo, vendeu o Colégio Euclides da Cunha, e o novo proprietário transferiu todo o mobiliário e laboratório para outra cidade, ficando Cantagalo sem estabelecimento de ensino médio.

Procurando sanar situação de tamanha gravidade o Prefeito Henrique Luiz Frauches conseguiu a criação de um ginásio do CNEC, que passou a ocupar este prédio, cedido pela PMC. O Ginásio da Campanha prestou extraordinário serviço a Cantagalo e à região, funcionando durante muitos anos com curso ginasial e de contabilidade.

Encerradas as atividades do CNEC em Cantagalo, existiam questões trabalhistas com vários professores e funcionários, surgindo na cidade a notícia de que o prédio seria vendido para quitação dos débitos trabalhistas; acertadamente, a PMC comprou o prédio, sendo as dívidas trabalhistas sanadas.

Atualmente, no histórico prédio funciona a Biblioteca Municipal Acácio Ferreira Dias, enquanto no terreno posterior foi construído o Centro Cultural Professora Amélia Thomaz, com um ótimo e confortável teatro.

Esta obra só foi realizada graças ao ex-deputado Luiz Sérgio (PT), através de duas emendas; a primeira no valor R$. 6.596.580,00, utilizada durante a construção. A segunda, com a quantia de R$. 1.500.000,00, para aquisição dos equipamentos necessários. Na obra houve a contrapartida da PMC.

A construção demorou cerca de treze anos em virtude da falta de cumprimento do cronograma por uma das firmas construtora.

A frente do prédio antigo é decorada, havendo na parte central, sobre a porta principal um emblema do estado do Rio de Janeiro, encimado por uma águia; de cada lado aparecem um ramo de café e outo de fumo, com a data 1924. Consta que a decoração foi trabalho do artista italiano Ricardo Lauria

Este histórico prédio, testemunha da vida cantagalense, foi salvo da demolição duas vezes, graças à ação da família Carvalho, o que me enche de satisfação e orgulho.

Júlio Carvalho.

Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo e atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo
Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo. Atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo e vice-prefeito de Cantagalo

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