“Quando o café esfriar”, por Amanda de Moraes

Jesus Cristo disse: Deus vomitará os mornos. Mais especificamente, na Bíblia, no Apocalipse 3:15–16, João escreve: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente!
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.”

Sejamos cristãos ou não, religiosos ou não, podemos tirar dos ensinamentos das Escrituras reflexões que ultrapassam a fé, ou seja, uma meditação sobre a vida.

De mornos o mundo está cheio. São os acomodados. São os sem convicção real. Os indiferentes por não sustentarem o desconforto de se posicionarem. Os que vivem em cima do muro, nem lado A, nem lado B. Que optam por não pensar criticamente por não se indispor com o mundo.

São os mais ou menos. A água morna. A comida morna. Aquele gosto que, ao levar à boca, dá enjoo. Sem graça. Sem sal. Ruim.

São aqueles que, por medo de desagradar, querem ser amigos de todos, e, no fim das contas, não são amigos de ninguém. Engolem a seco os sapos da vida, com um sorriso pedinte para serem queridos. Sem conflito, sem confronto, sem opinião. Preferem sustentar um sufocamento interno do que o desconforto de se posicionarem. Posição pode gerar rejeição. Posição marca presença? É melhor passar despercebido. Os mornos.

Assim o são em tudo na vida. No afeto. No casamento. No trabalho. Na política. Tanto faz. São os que passam a vida à sombra por ser a perda somente possível aos que se movem. Evitando a derrota, pouco importa que se evite também a vitória. Nesse caminho de nem lá nem cá, a vida ganha o gosto de café morno. Escorre pelas mãos, sem grande tristeza e sem grandes alegrias.

A graça da humanidade se faz por pessoas que, apesar da dor, procuram acordar com sede de vida. Nesse caso, leia-se que não é uma ode plena à intensidade, ao viver com o pé no acelerador, como um trem descarrilhado. Porém, é rascunhar um sonho e tentar tirá-lo do papel, seja ele um diploma, cuidar de uma planta ou começar a ler um livro. Buscar conhecer-se, desconstruir conceitos e encarar a própria companhia, em um domingo solitário. Tentar ser uma pessoa melhor, pelos outros e por si mesmo, sabendo que exige esforço.

Ser verdadeiro diante do outro, sabendo do risco de não ser escolhido, e, seja qual for o resultado, ter orgulho pela lealdade ao seu eu autêntico. Assumir a possibilidade de, em alguns momentos, caminhar sozinho por não negociar o seu valor com nada e com ninguém. Continuar acreditando no amor, mesmo sabendo que pode preceder uma grande queda.

Posicionar-se, com sabedoria, ainda que custe desagradar e restringir seu ciclo de relacionamentos. Opinar politicamente. Ver o que pode ser melhorado ao redor. Como disse o escritor escocês Charles Mackay: “Aquele que nunca transformou o certo em errado foi um covarde na luta.”

Chorar e se levantar logo após a queda; buscar entender o que fez você ir tão a fundo e, mesmo assim, continuar a vida, de cabeça erguida, sabendo que a dor faz parte do viver. Ouvir o divergente. Pensar. Fazer da própria vida um livro, minimamente interessante, que, ao ser relido, instigue curiosidade à moda de um personagem que emociona.
Ao encontrarmos alguém em lamúria, em derrota, digamos: “A história da vida não é sobre felicidade tão somente, mas sim sobre a ousadia de deixar impressa a identidade de quem teve a coragem de expressar quem é.”

Amanda de Moraes Estefan é advogada, no Rio de Janeiro, e sócia do escritório Mirza & Malan Advogados. Ela é neta do ex-prefeito de Trajano de Moraes, João de Moraes
Amanda de Moraes Estefan é advogada, no Rio de Janeiro, e sócia do escritório Mirza & Malan Advogados. Ela é neta do ex-prefeito de Trajano de Moraes, João de Moraes

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