“O trabalho acontece em sistemas imperfeitos”, por Jalme Pereira

Existe uma fantasia silenciosa no trabalho: a de que ele funciona como uma equação justa, em que quem entrega mais é reconhecido, quem é mais competente cresce mais rápido e o melhor projeto recebe mais investimento.

Só que, na prática, nem sempre é assim. Nem sempre quem produz mais recebe mais crédito. Nem sempre o mais preparado é promovido primeiro. Nem sempre a melhor ideia ganha orçamento. Isso não é exceção, é parte do funcionamento de sistemas formados por pessoas, interesses, limitações e decisões tomadas sob pressão.

Empresas são, por natureza, sistemas imperfeitos. Negar essa realidade gera frustração constante. Romantizá-la gera ingenuidade. O ponto central não é discutir se o sistema é justo ou não. A questão mais importante é outra: como você escolhe responder às imperfeições?

A decisão que quase ninguém percebe

Você pode escolher, por exemplo, o caminho da indignação improdutiva: gastar energia tentando provar que a decisão foi injusta e de que “isso não deveria ter acontecido”. E, muitas vezes, não deveria mesmo. A questão é: essa energia está construindo algo ou apenas aumentando o desgaste?

Um outro caminho é o da adaptação inteligente. Não se trata de aceitar tudo passivamente, mas de reconhecer que você não controla todas as variáveis. Você controla sua postura e suas ações. Quando o ambiente falha, reduzir o drama e aumentar a execução costuma ser mais eficaz, não por indiferença, mas por estratégia.

Entre o impulso e a estratégia

No dia a dia, situações como crédito indevido, promoções adiadas, mudanças de prioridade ou críticas injustas são comuns. A frustração inicial é legítima. O problema surge quando a reação vira sua identidade. Em ambientes complexos, torna-se essencial desenvolver a capacidade de seguir em frente com lucidez. Não é “engolir” o que aconteceu, mas agir com clareza, o que exige atitudes práticas e conscientes.

O que aconteceu versus o que você conta a si mesmo

Uma prática essencial é separar fato de interpretação. Fato é o que ocorreu objetivamente. A promoção foi para outra pessoa. O prazo mudou. O crédito não veio. Interpretação é a narrativa que você constrói a partir disso: “não sou valorizado”, “sempre fazem isso comigo”, “não adianta me esforçar”. Quando fato e narrativa se confundem, o problema se amplia. Quando são separados, surge espaço para ação estratégica.

Ação em vez de ressentimento

Profissionalismo não é frieza; é eficácia. Você pode, por exemplo, começar a documentar melhor suas entregas, alinhar expectativas por escrito, negociar escopo, comunicar riscos com antecedência ou tornar seu trabalho mais visível de forma estruturada. Essas atitudes não garantem perfeição do sistema. Mas aumentam sua influência dentro dele.

Não confunda resultado com identidade

Um erro comum é permitir que um resultado circunstancial redefina seu valor. Um projeto que não prospera ou uma promoção adiada nem sempre refletem sua competência; podem refletir, por exemplo, uma limitação do contexto. Quando você deixa sua autoestima à mercê das imperfeições do ambiente, perde autonomia. Ao preservar sua identidade profissional, mantém direção.

Competência consistente, aliada a uma comunicação clara, é estratégia de longo prazo. Ela gera confiança, amplia possibilidades e, se necessário, facilita transições. A competência, no fim, é liberdade.

Aceitar imperfeição não é aceitar desrespeito

É importante fazer uma distinção: reconhecer que sistemas são imperfeitos não significa tolerar abusos, desrespeito ou práticas antiéticas. Situações recorrentes de injustiça ou assédio exigem posicionamento e, muitas vezes, mudança de ambiente. Mesmo nesses cenários, existe um princípio interno que vai proteger sua trajetória: não permitir que o caos externo desorganize sua disciplina interna.

Criar estabilidade em meio ao caos

Quando a realidade é instável, você precisa criar pontos de estabilidade sob seu controle. Isso pode significar algo simples e poderoso: definir poucas prioridades reais por dia; registrar entregas e decisões importantes; preparar o próximo passo antes de encerrar o expediente; concluir tarefas pequenas para gerar sensação concreta de progresso.

Essas práticas não eliminam a imperfeição do sistema. Mas constroem consistência pessoal dentro dele.

Direção em vez de vitimização

No fim, maturidade profissional não é esperar um ambiente ideal para performar bem. É desenvolver clareza, disciplina e estratégia mesmo em ambientes imperfeitos. Porque o sistema pode não ser totalmente justo. Mas a sua resposta ainda é uma escolha. E é nessa escolha diária que se constrói resiliência com direção.

Essa reflexão dialoga com uma ideia apresentada em Arrume a Sua Cama, de William H. McRaven: quando o ambiente é caótico, comece organizando o que está ao seu alcance. Sistemas podem ser imperfeitos. A sua postura não precisa ser.

Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)
Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)

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