“Você trocaria alianças?”, por Amanda de Moraes

Ao chegarmos a uma certa idade, começamos a sentir uma carga maior. Por aquilo que não foi realizado, pelos planos que saíram errado, pelas metas não conquistadas.

Entre tantas incompletudes, vez ou outra está a separação, não se ter casado ou tido filhos. São pilares para a vida de muitas pessoas, em especial por a sociedade atribuir valor social quando se preenche um desses requisitos.
Em relação às mulheres, esse discurso recai com mais acidez, principalmente pelos olhares obsoletos, que insistem em julgar a vida alheia. Ao final, o boleto do outro ninguém quer pagar, não é mesmo?

Relembremos a atriz Aracy Balabanian, falecida em 2023. Em uma entrevista, ela manifestou tristeza ao ler como a mídia retratou a morte de sua amiga Maria Lucia Dahl: “(…) reduziram sua trajetória ao fato de não se ter casado nem tido filhos. Que tipo de obituário é esse?”

Aracy então completou: “Eu não casei, eu não tive filhos e vivi intensamente. Amei e fui amada. Gostaria de ser lembrada por meu trabalho e pelo amor à vida.”

Está tudo bem no sonho de um casamento. Dividir a vida com um companheiro/companheira e partilhar os momentos diversos são opções valorosas. É realmente encantador. Querer ter filhos também é um sonho mais do que nobre, porque preenche, com sentido, a vida de muitas pessoas.

No entanto, é preciso reconhecer que esses ideais, quando tomados como destino obrigatório, e não como escolha consciente, podem transformar-se em fonte de frustração e inadequação. Nem toda relação é espaço de construção mútua. Algumas se tornam cenário de desgaste, silêncio ou sofrimento. Da mesma forma, a maternidade e a paternidade, apesar de romantizadas, envolvem renúncias profundas, responsabilidades contínuas e impactos que nem sempre são considerados. É preciso refletir quando sonhos coletivos são assumidos como individuais. Porque quando isso acontece, perdemos a capacidade de escolher com consciência, e vamos de supetão, a todo custo, optando pelo que não agrega na vida particular. A partir de qual lugar estamos buscando tantas coisas?

Se condicionamos a vida à ideia de que apenas uma única conquista, como o matrimônio, por exemplo, é capaz de nos tornar felizes, podemos perder a real capacidade decisória. A necessidade substitui o discernimento. Passamos a nos encaixar na primeira oportunidade que surge, tolerando o que antes não aceitaríamos. E, nesse processo, tornamo-nos menores. Aliás, o que queremos? Escolher alguém que agregue ou evitarmos, a qualquer custo, a solidão?

Quando se está com fome, qualquer alimento serve para tapar o vazio. Com a nossa energia não é diferente; se não estamos nutridos de nós mesmos, qualquer um irá servir para preencher. Ademais, ampliar a própria rede, reconhecendo que o afeto se constrói em múltiplos vínculos, é uma forma de nutrir a si mesmo. Amizades, família, trabalho, lazer e o exercício de olhar para o outro são dimensões que, somadas, sustentam o sentido maior da vida.

Quando toda a expectativa é concentrada em um único vínculo, ele se sobrecarrega e não suporta esse peso. Diversificar afetos não diminui o valor de um parceiro; ao contrário, torna a relação mais livre e menos dependente.

Afeto não se limita ao amor romântico. Ele se constrói de outras formas. Seja o trabalho que mobiliza, nos interesses que despertam curiosidade, nas experiências que ampliam a percepção de si e do outro. É nesse conjunto, e não em uma única relação, que a vida se preenche de propósito. Quanto mais diversas são essas conexões, menor a chance de depositar em uma só pessoa a responsabilidade por suprir tudo. Há beleza em muitos caminhos. Há felicidade em diferentes formas de existir. Há sentido nas pequenas coisas do nosso cotidiano.

Se a solidão vier, não há problema em acolhê-la. Mas não a transforme em destino. Lembre-se de que a sua potência não está fora, à espera de alguém, e sim em você, e nas múltiplas formas de conexão consigo e com o mundo.

Lembremos de Crisóstomo, do escritor renomado Valter Hugo Mãe. Um pescador que, aos 40 anos, confronta a dor de não ter tido um filho. Em vez de permanecer à espera do que a vida não lhe deu, ele se move em direção àquilo que ainda pode construir: vínculos. Forma, assim, uma família que não nasce do modelo convencional, mas da escolha e do afeto.

Como escreve o próprio autor em O Filho de Mil Homens: “Ser o que se pode é a felicidade.”

Amanda de Moraes Estefan é advogada, no Rio de Janeiro, e sócia do escritório Mirza & Malan Advogados. Ela é neta do ex-prefeito de Trajano de Moraes, João de Moraes
Amanda de Moraes Estefan é advogada, no Rio de Janeiro, e sócia do escritório Mirza & Malan Advogados. Ela é neta do ex-prefeito de Trajano de Moraes, João de Moraes

Ver anterior

Euclidelândia tem reunião com moradores e autoridades municipais

Ver próximo

Ginásio da Firjan SESI Esportivo Frederico Sichel terá reforma para melhorias na infraestrutura

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Populares

error: Conteúdo protegido !!