“Por que sob pressão você vira outra pessoa?”, por Jalme Pereira

Havia um espadachim que era conhecido em todo o reino pela precisão dos seus movimentos. Em treinos, era impecável. Rápido, seguro e disciplinado. Nunca errava. 

Mas, em uma competição importante, diante de centenas de pessoas, algo estranho aconteceu. Suas mãos tremiam. A respiração ficou curta. Os movimentos perderam precisão. A mente acelerou. E aquele homem que parecia invencível começou a errar golpes simples.

Derrotado, procurou seu mestre e perguntou: “Como posso treinar tanto, e falhar justamente quando mais importa?”

O mestre respondeu: “Porque, no treino, você luta contra o adversário. Sob pressão, você luta contra o seu próprio estado.”

Muitas pessoas vivem isso. Não falham por falta de preparo. Falham porque, sob pressão, acessam uma versão interna completamente diferente daquela que existe quando estão em equilíbrio.

Você não vira outra pessoa. Você muda de estado.

Essa talvez seja uma das experiências mais frustrantes da vida. Você sabe fazer e conhece o caminho.

Você já fez antes, mas, quando a pressão chega, algo muda. A mente acelera. O corpo tensiona. A confiança diminui. A clareza desaparece. E aquilo que parecia simples se torna difícil. O problema é que muita gente interpreta isso como incapacidade. Mas, na maioria das vezes, é estado.

Estados emocionais mudam sua performance

Existe uma diferença enorme entre quem você é e o estado emocional em que você está. Porque performance não depende apenas de competência. Depende do estado interno a partir do qual essa competência está sendo acessada. Uma pessoa em estado de recurso tende a agir com clareza, confiança, presença, criatividade e flexibilidade.

Mas, em estado limitante, a mesma pessoa pode acessar o medo, a tensão, a insegurança, a impulsividade e bloqueio. E isso muda completamente o resultado. O conhecimento continua ali. Mas o acesso a ele muda.

A dor de não se reconhecer sob pressão

Talvez uma das partes mais difíceis esteja em olhar para si mesmo depois e pensar: “Esse não sou eu.” Mas, de alguma forma, foi.

Quantas vezes alguém sai de uma reunião importante se perguntando por que travou, termina uma conversa difícil arrependido do que disse ou mesmo percebe que, sob pressão, reagiu com raiva, silêncio, fuga ou impulsividade?

O problema não é apenas o erro. É a dor de perceber que, justamente nos momentos mais importantes, você não consegue acessar a sua melhor versão. E isso machuca, porque começa a abalar a confiança. 

O estado limitante sequestra sua capacidade

Sob pressão, o cérebro entra em alerta. E, nesse estado, ele prioriza proteção e não performance. É por isso que: você esquece o que sabia, reage sem pensar, interpreta tudo como ameaça ou simplesmente trava.

Não é incompetência. É um sistema interno tentando protegê-lo, mesmo que isso custe sua melhor performance.

Como acessar estados mais produtivos

A boa notícia é que estados emocionais podem ser influenciados. Você não controla tudo o que sente. Mas pode aprender a influenciar como entra em determinadas situações. Alguns caminhos ajudam:

  • Reconheça seu padrão sob pressão: observe o que normalmente acontece com você quando está sob pressão: Você acelera? Se fecha? Fica agressivo? Trava? Perceber o padrão é o primeiro passo.


  • Regule o corpo antes de regular a mente: respiração, postura e ritmo corporal influenciam diretamente o estado emocional. Muitas vezes, mudar o corpo muda o estado. Antes de situações importantes, desacelere conscientemente.
  1. Entre no ambiente antes de entrar no problema: em vez de focar imediatamente na ameaça, reflita sobre o você preciso acessar dentro de si para lidar bem com o que está acontecendo: Confiança? Clareza? Calma? Presença? Estados podem ser evocados e isso muda sua forma de agir.

Um convite à consciência

Talvez o problema nunca tenha sido falta de capacidade. Talvez o problema seja o estado emocional que assume o controle justamente quando a pressão aumenta. Por isso, antes de se julgar pelos momentos em que falha, observe quem você se torna sob pressão. 

Porque, muitas vezes, o desafio não é aprender mais. É aprender a acessar sua melhor versão quando ela mais importa.

Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)
Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)

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