“Quando o gol é a favor ou contra?”, por Amanda de Moraes

A Copa do Mundo é festa dos mais diferentes povos. Movimenta paixões, promove culturas, traz alegria, mesmo em tempos de dificuldade. Faz com que o mundo pareça falar a mesma língua.

A realização da Copa deveria ocorrer mais em lugares que agregam e acolhem, por ser um momento em que os olhos do mundo estão voltados para um único ponto. Porém, quando a geopolítica entra em cena, há pouco espaço para os não protagonistas.

Isso foi visto na controvérsia envolvendo a delegação do Irã e a deportação do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan. Ele tinha o visto válido, credenciais oficiais e uma trajetória reconhecida internacionalmente. Por isso, foi escolhido pela Fifa para participar do torneio mundial.

Artan é considerado o melhor árbitro do continente africano, eleito assim pela Confederação Africana de Futebol (CAF) em 2025. Apesar de todos esses louros, foi proibido de entrar nos EUA. Passou 11 horas sendo interrogado no aeroporto de Miami, para após ser (acredite!) deportado.

O time iraniano não pôde pernoitar em território americano; mudou sua base para o México. Mais: muitos torcedores e jornalistas (iranianos e não iranianos) não puderam estar presentes devido à restrita política imigratória.

Dito isso, é sensível fazer a leitura entre Copa do Mundo e aceitação das diferenças culturais. Essas questões carregam em si muitas camadas, principalmente ligadas à xenofobia (aquele preconceito contra pessoas estrangeiras, ou seja, os de fora, os que não pertencem são alocados no discurso e nas ações como inferiores).

A xenofobia, aliás, vem calcada em estereótipos e discursos de ódios, comentários pejorativos direcionados a uma nação inteira. Árabes são assim. Latinos são assados. E por aí vai. Como se em uma nação, país ou cultura não existisse diversidade…. Esse preconceito estrutural não opera apenas em aeroportos internacionais; ele se alimenta do senso comum cotidiano.

Quando Freud debate sobre a guerra, entre as suas considerações, está a sugestão de ampliar os vínculos entre os povos, ou seja, fortalecer os laços emocionais entre os homens, muito além de uma diplomacia internacional. O conceito de civilização inicia com a identificação entre família e expande-se para conceitos como cidade, nação, religião, cultura. Se continuarmos ampliando esse círculo, ultrapassando fronteiras, até que as pessoas se sintam pertencentes a uma comunidade humana mais ampla, podemos mitigar o impulso bélico.

Conhecer a história e a realidade de outros povos reduz a tendência de transformá-los em caricaturas. É mais difícil odiar um povo quando você conhece seus medos, sonhos e sofrimentos.
A Copa do Mundo tem o poder de atrair a atenção do planeta. Que ela sirva para celebrar gols e diminuir fraturas. O desafio do futebol persiste, para além da torcida na arquibancada.

Amanda de Moraes Estefan é advogada, no Rio de Janeiro, e sócia do escritório Mirza & Malan Advogados. Ela é neta do ex-prefeito de Trajano de Moraes, João de Moraes
Amanda de Moraes Estefan é advogada, no Rio de Janeiro, e sócia do escritório Mirza & Malan Advogados. Ela é neta do ex-prefeito de Trajano de Moraes, João de Moraes

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